Nuno Cláudio em entrevista fala da nova época e das dificuldades previsíveis que a conjuntura económica vai significar para os clubes. O mister recorda os tempos do curso de Coaching Desportivo no ano passado em que foi colega de Rui Quinta, hoje adjunto de Vitor Pereira no Futebol Clube do Porto:
"Passámos intervalos e tempos livres a falar de futebol, é uma pessoa bastante humilde e acessível"
Entrevista de Augusto Torres a Nuno Cláudio (Agosto de 2011)
A nova época já arrancou para as equipas da região. O que é que o Nuno Cláudio destaca como factor determinante para esta nova temporada?
Bom, o futebol é indissociável da realidade económico-financeira das empresas, dos municípios e das pessoas. Como todos sabemos, vive-se um momento de grandes mudanças, de profundas alterações na realidade que todos conhecemos das últimas décadas, e essa nova ordem apresenta-nos um futuro imediato em que os recursos vão ser muito mais escassos. O futebol vive dos patrocinios das empresas e da colaboração das autarquias, dois agentes sociais atingidos pela chamada crise, que é uma palavra que eu gosto pouco de usar porque é, ela própria, uma via de condução para um estado de preocupação e depressão colectiva.
Vai ser, então, uma época marcada pelas dificuldades dos clubes.
Eu diria que vai ser uma época bastante desafiante para os clubes, que terão que encontrar soluções para continuar a existir com cada vez menos dinheiro. Aqueles que têm protagonizado gestões realistas terão menos dificuldade em enfrentar o momento. Pior será para os que chegaram a esta fase com problemas que se arrastam do passado.
Essa é uma preocupação que por norma não assiste aos treinadores. Pelo menos não aparecem publicamente a abordar o assunto.
Um treinador tem que compreender a realidade que o envolve. Se chegarmos a um clube e não estivermos identificados com os desafios e as eventuais dificuldades pelas quais o clube passa, então corremos o risco de não ter os pés assentes na terra e de comprometermos a comunicação com os responsáveis que estão acima de nós.
Rui Quinta foi colega do Nuno Cláudio no curso de Coaching Desportivo, e agora é adjunto de Vitor Pereira no Porto. Está satisfeito pelo percurso do seu colega de curso?
Muito satisfeito. O mister Rui Quinta merecia esta oportunidade. Acompanhei o seu trabalho quando treinou o Gil Vicente na Liga Vitalis, no ano em que o Carregado também participou na prova, e depois fui encontrá-lo no Curso de Coaching de Elite que ambos frequentámos no decorrer do mês de Maio do ano passado, no Porto. Passámos muitos intervalos e tempos livres a falar de futebol - o curso durava o dia inteiro, eu a chatea-lo para ele me explicar métodos de treino e de jogo e ele com uma paciência infinita a fazer desenhos em resmas de papel. Quando o curso acabou eu disse-lhe que ia guardar aqueles desenhos de circulações tácticas e métodos de treino, que haveriam de valer dinheiro quando ele chegasse ao Real Madrid. Para já está no Porto, vai bem lançado para valorizar os meus esquemas de treino (sorrisos)...
Já falou com o Rui Quinta depois da conquista da supertaça Cândido de Oliveira?
(pausa) Eu sei que essa é uma pergunta marota. Mandei-lhe uma mensagem a dar-lhe os parabéns pela conquista do troféu. Foram parabéns sinceros, porque se trata de um amigo. Sou adepto do Benfica, mas não sou fundamentalista e reconheço a superioridade do Futebol Clube do Porto, onde o sucesso acontece naturalmente porque é devido à organização e à coesão do grupo, dos jogadores, dos treinadores e dos dirigentes. Há uma cultura enraizada e muito bem orientada, e quem chega adapta-se à organização que encontra, o que por norma resulta no potenciar das suas capacidades. Um dia de estágio a conviver com a realidade do Porto deverá significar, pelas minhas contas, uma época inteira de experiência.